1. Introdução
A escoliose é uma condição caracterizada por uma curvatura lateral da coluna vertebral, geralmente acompanhada de rotação vertebral, que pode causar alterações estéticas, dor, disfunção respiratória e impactos na qualidade de vida. A pergunta que muitos pacientes e familiares fazem é: “Quiropraxia trata escoliose?”
Pontos de Destaque:
- Quiropraxia não trata a escoliose, mas pode ser um complemento eficaz quando combinada a exercícios específicos para escoliose (PSSE, Schroth, SEAS).
- Redução média do ângulo de Cobb em protocolos combinados varia entre 5° e 10°, dependendo da idade, curva e adesão ao tratamento.
- Segurança: intervenções aplicadas por profissionais qualificados têm baixo risco; efeitos leves, como dor temporária, são mais comuns.
- Melhora de sintomas: dor, postura, função respiratória e qualidade de vida podem ser significativamente beneficiadas.
- Melhor resposta: adolescentes em surto de crescimento com curvas leves a moderadas apresentam maior probabilidade de estabilização e pequenas correções estruturais.
- Protocolos combinados são essenciais: manipulação + exercícios corretivos + monitoramento radiográfico aumentam adesão e resultados a longo prazo.
Sumário

Nos últimos anos, o interesse pelo uso da quiropraxia como parte do tratamento conservador da escoliose tem aumentado, principalmente porque se trata de uma abordagem não invasiva, focada na mobilidade segmentar, alinhamento postural e conforto funcional. Contudo, é importante diferenciar três objetivos distintos ao analisar a quiropraxia nesse contexto:
- Redução objetiva do ângulo de Cobb (curvatura radiográfica)
- Prevenção da progressão da curva durante o crescimento
- Melhora de sintomas como dor, fadiga muscular, alterações posturais e função respiratória
Estudos recentes (2015–2025) sugerem que, embora a quiropraxia possa contribuir para estabilização e melhora funcional, a manipulação isolada dificilmente substitui exercícios específicos (PSSE) ou brace em curvas com risco de progressão.
Dados de base:
- A escoliose idiopática afeta aproximadamente 2–4% da população adolescente
- Curvas ≥10° (ângulo de Cobb) são consideradas clinicamente relevantes
- A quiropraxia utiliza técnicas como HVLA, mobilização articular, liberação miofascial e exercícios de reeducação postural
2. Fundamentos científicos
A quiropraxia se fundamenta em princípios biomecânicos e neurofisiológicos: a ideia central é restaurar mobilidade articular, equilibrar tensões musculares e otimizar padrões posturais.
Quando combinada a exercícios específicos para escoliose (PSSE, Schroth, SEAS), há evidências de que a manipulação pode:
- Modificar padrões motores assimétricos
- Melhorar a consciência postural
- Reduzir tensões miofasciais que contribuem para a progressão da curva
Principais técnicas utilizadas:
- HVLA (High-Velocity Low-Amplitude): manipulação rápida de segmentos vertebrais
- Mobilização articular: movimentos controlados para restaurar amplitude
- Terapia miofascial: liberação de tecidos moles
- Exercícios de correção postural: PSSE, Schroth, SEAS
HVLA (High-Velocity Low-Amplitude) – Manipulação de Alta Velocidade e Baixa Amplitude
O HVLA é uma técnica central da quiropraxia, traduzida para o português como “manipulação de alta velocidade e baixa amplitude”.
Como funciona:
- O profissional aplica um impulso rápido e controlado sobre uma articulação específica.
- A amplitude do movimento é pequena, mas a velocidade é alta, promovendo liberação articular e melhoria da mobilidade segmentar.
- O objetivo não é “forçar” a coluna, mas corrigir pequenas restrições de movimento, reduzir tensão muscular e melhorar a função neuromuscular.
Benefícios relatados em escoliose (quando combinado a exercícios corretivos):
- Melhora da mobilidade segmentar
- Redução de assimetrias posturais
- Potencial suporte para exercícios específicos (PSSE/Schroth/SEAS)
- Contribuição indireta na estabilização ou pequenas reduções do ângulo de Cobb
Segurança:
- Quando aplicada por profissional qualificado e após avaliação ortopédica, a HVLA é considerada segura, com efeitos adversos leves (como dor temporária) sendo os mais comuns.
O racional clínico é que a manipulação pode preparar o corpo para que os exercícios corretivos sejam mais eficazes, mas não é uma intervenção isolada capaz de reduzir significativamente curvas severas sem acompanhamento multidisciplinar.
3. Evidências de eficácia se Quiropraxia trata escoliose
Pesquisas publicadas entre 2017 e 2024 indicam:
- Melhor resultado quando a quiropraxia é parte de protocolos combinados com exercícios específicos ou brace
- Manipulação isolada apresenta resultados inconsistentes, com pequenas reduções médias do ângulo de Cobb
- Estudos de coorte e séries de caso mostram reduções médias de 5° a 10°, e algumas correções percentuais de 15–25%
- Risco de eventos adversos graves é baixo; efeitos leves como dor muscular transitória são mais comuns
Resumo: a quiropraxia é mais eficaz como complemento e seu efeito isolado na redução da curva é limitado, especialmente em curvas moderadas ou graves.
4. Como funciona — protocolo prático
Um protocolo típico pode durar 3 a 12 meses, dependendo do crescimento do paciente, curva e adesão ao tratamento.
Componentes do protocolo:
- Avaliação inicial: radiografia, índice de Risser, exame funcional
- Fase ativa (0–3 meses): 2 sessões/semana, combinando manipulação + exercícios supervisionados
- Fase de consolidação (3–9 meses): 1 sessão/semana + exercícios domiciliares
- Monitorização periódica: radiografias a cada 3–6 meses para acompanhar evolução
- Intervenções complementares: brace se necessário, treino respiratório, exercícios de alongamento e fortalecimento
A ideia é criar uma abordagem holística que una mobilidade, força, propriocepção e correção postural, maximizando os resultados funcionais e estruturais.
5. Resultados esperados e benefícios
- Redução do ângulo de Cobb: 5–10° em protocolos combinados
- Melhora da dor e função: consistente, inclusive em adolescentes e adultos
- Função respiratória: melhora moderada quando treino respiratório é integrado
- Postura e alinhamento: aumento da consciência postural e simetria funcional
- Qualidade de vida: pacientes relatam maior confiança, menor fadiga e melhor desempenho em atividades diárias
Pacientes com curvas leves (10–30°) e boa adesão têm maior probabilidade de estabilização ou pequenas reduções. Curvas maiores (>45°) raramente regridem sem intervenção cirúrgica.
6. Indicações clínicas e critérios
- Melhor resposta: adolescentes em crescimento (Risser 0–2) e curvas leves a moderadas
- Contraindicações: instabilidade vertebral, patologia infecciosa, tumores, alterações estruturais graves
- Uso recomendado: como adjuvante a PSSE e brace, nunca como substituto de tratamento prescrito por ortopedista
Sempre é fundamental que um profissional qualificado realize avaliação radiográfica e funcional antes de iniciar qualquer intervenção.
7. Comparação com outras abordagens
- PSSE (Schroth/SEAS): evidência robusta para reduzir progressão e melhorar aparência
- Brace: padrão-ouro para prevenção de progressão de curvas moderadas a graves
- Terapia manual: eficaz quando combinada, mas raramente substitui brace ou cirurgia
A quiropraxia atua como complemento funcional, aumentando adesão a exercícios e melhora postural, mas não substitui tratamento conservador tradicional em casos de alto risco.

8. Desafios atuais e perspectivas
- Poucos estudos controlados multicêntricos padronizados
- Escassez de seguimento >2 anos
- Necessidade de protocolos replicáveis e métricas funcionais além do Cobb
- Tecnologias emergentes (imagens 3D, sensores posturais) podem permitir monitoramento não radiográfico no futuro
A pesquisa futura deve focar em protocolos padronizados, desfechos clínicos mensuráveis e integração multidisciplinar.
9. Considerações práticas e cuidados
- Avaliação inicial completa é essencial
- Educação do paciente e família sobre expectativas realistas
- Protocolos combinados aumentam adesão e resultados
- Monitoramento contínuo evita progressão inadvertida
- Intervenção deve ser supervisionada por equipe qualificada
10. FAQ
1. Quiropraxia pode substituir o brace (colete)?
Não. A quiropraxia é um complemento, nunca substituto. Brace continua sendo indicado para curvas em risco.
2. Quantos graus de redução do Cobb são realistas?
Protocolos combinados podem atingir reduções médias de 5–10°, variando conforme idade, curva e adesão.
3. A quiropraxia é segura para adolescentes?
Sim, quando aplicada por profissional qualificado. Efeitos leves como dor temporária podem ocorrer.
4. Quanto tempo leva para ver resultados?
Mudanças funcionais podem aparecer em semanas; alterações estruturais radiográficas geralmente requerem meses de acompanhamento.
5. Pode ser usada em adultos?
Sim, especialmente para melhora de dor, postura e função, mas a redução do ângulo de Cobb em adultos é limitada.
11. Referências (seleção 2015–2025)
- Sun Y, Zhang Y, Ma H, Tan M, Zhang Z. Spinal Manual Therapy for Adolescent Idiopathic Scoliosis: A Systematic Review and Meta-Analysis. Evidence-Based Complement Alternat Med. 2023.
- Piqueras-Toharias M, Ibáñez-Vera AJ, Peinado-Rubia AB, et al. Effects of High-Velocity Spinal Manipulation on Quality of Life, Pain and Spinal Curvature in Children with Idiopathic Scoliosis. Children. 2024;11:1167.
- Wenxia Z, et al. Efficacy of combined physiotherapeutic scoliosis-specific exercises and manual therapy. BMC Musculoskelet Disord. 2024.
- Dimitrijević V, Rašković B, Popović M, et al. Treatment of idiopathic scoliosis with conservative methods based on exercises: systematic review. Frontiers in Sports and Active Living. 2024.
- Schreiber S, Parent EC, Hedden DM, et al. Effect of Schroth exercises added to standard of care in adolescents with idiopathic scoliosis. Scoliosis. 2015;10:24.
Disclaimer médico: Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação clínica individual. Sempre consulte um ortopedista ou fisioterapeuta especialista em coluna e equipe multidisciplinar qualificada.

